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Iosif Landau: Um Rio de Crimes Imprimir E-mail
Escrito por Álvaro Costa e Silva, Jornalista   

O romance policial, especialmente o americano, tem suas cidades míticas: a São Francisco de Dashiell Hammett, a Los Angeles de Raymond Chandler, a Detroit de Elmore Leonard e, mais recentemente, a Miami de Carl Hiaasen - as duas últimas num registro mais escrachado, menos clássico. Isso sem falar na Londres de Conan Doyle. Pois, a julgar pelo que se tem publicado no gênero sem precisar de tradução, o Rio de Janeiro deixou de ser apenas o refúgio de nove entre dez escroques, como o cinema fez o mundo acreditar.

A cidade, agora, é forte candidata a fazer parte desta galeria. E sem fazer feio, o que, em se tratando do Rio, convenhamos, é fácil. O crime está entre nós também nas páginas dos livros, felizmente sem maiores riscos, exceto o de perder o sono com o prazer da leitura.

A Coleção Negra, da editora Record, com mais de 30 títulos, destaca alguns mestres da ficção policial da atualidade, como os americanos Ed McBain e James Ellroy e o italiano Andrea Camilleri, e conta até agora com cinco autores brasileiros. Apenas um deles, o gaúcho Tabajara Ruas, não tem a sua história passada no Rio. Os outros - Flávio Moreira da Costa, Rubens Figueiredo, Rubem Mauro Machado e Rafael Cardoso - fizeram da uma vez chamada Cidade Maravilhosa o cenário de suas tramas. Como se dissessem, essa beleza toda esconde muitas outras coisas, nem sempre tão belas.

RomanceTrombadimha

Flávio Moreira da Costa é um dos pioneiros da ficção policial no Brasil, com a publicação, ainda nos anos 1970, do romance-reportagem Eu Vi a Máfia de Perto. No início dos 1980, lançou Avenida Atlântica, um 'romance trombadinha', na definição do próprio autor, escrito a partir do roteiro de uma abortado projeto cinematográfico. Copacabana, um bairro noir por excelência, é o cenário principal da trama, que põe frente a frente o jornalista Jack Goodis e o traficante Beto Morfético, em meio a muita violência. Em Modelo Para Morrer, de 1999, Flávio juntou o estilo hard-boiled americano com algumas experiências formais, sem descuidar do suspense. 'Em geral, o escritor brasileiro tem vergonha de fazer literatura de entretenimento', critica ele, atualmente às voltas com uma história em que se misturam espiões nazistas e malandros no Rio dos anos 40. Como pano de fundo, o esplendoroso Copacabana Palace e as curvas da ainda desabitada Avenida Niemeyer.

Rubem Mauro Machado aproveitou sua larga experiência como jornalista, e também episódios da recente história política do Brasil, para escrever os contos de O Executante, publicados em 2000, e cujos direitos ele está negociando para o cinema, ao mesmo tempo em que toca um novo projeto de livro policial. 'Agrada-me usar o gênero para comentar certos costumes, um pretexto para falar da cidade, de suas mazelas, desigualdades, e de áreas mais esquecidas, como a Praça da Cruz Vermelha, perto da qual mora o personagem jornalista dos meus contos. Outro local muito bom é a Rua Prado Júnior, que possui um clima vampiresco. Ter um repórter fazendo as vezes do detetive tradicional também é excelente, porque ele pode se deslocar à vontade, da Baixada à Barra, e falar tanto com o porteiro do edifício quanto com o empresário poderoso. Além disso, no Rio existe um tipo de humor que cai como uma luva numa trama policial', acredita Rubem.

Suspense de Aldir

A aposta da Record para os próximos meses é a estréia de Aldir Blanc, esse grande poeta da música brasileira, nos domínios da literatura policial, com um romance que, é claro, se passa no Rio, mais precisamente em seus subúrbios tão esquecidos. Leitor voraz de pulp fiction, tendo como um de seus autores prediletos o pouco conhecido John Dickson Carr, Aldir promete um livro fiel aos cânones do gênero. 'Um policial como nos velhos tempos. Nada das detestáveis paródias', garante ele. O resto é segredo de estado. Nem a mulher dele tem acesso aos originais. Mas se sabe que há um personagem misto de malandro e compositor, vascaíno doente, que vive pelos botequins da Muda e não pára de fazer novos sambas enquanto os crimes acontecem - não fosse o autor do livro quem é.

Ao lado de romancistas consagrados como o americano Lawrence Block, o espanhol Manuel Vázquez Montalbán e a inglesa P. D. James, o ex-professor de filosofia e teoria psicanalítica Luiz Alfredo Garcia-Roza é um dos escritores mais lidos da coleção criminal da editora Companhia das Letras. Pode-se dizer mais: Garcia-Roza, pelo sucesso de seus livros e de seu principal personagem, o delegado Espinosa, tornou-se uma importante referência do novo romance policial brasileiro. A quarta aventura de Espinosa, ainda sem título, sairá do prelo em outubro. O autor, para manter o suspense, dá poucas pistas da história, mas adianta que a ação se desenrola entre Leme e Copacabana.

Nas novelas de Garcia-Roza - O Silêncio da Chuva, de 1996, Achados e Perdidos, de 1998, e Vento Sudoeste, de 1999 -, os personagens bebem chope, almoçam ou jantam no Bar Luís, no Bar Lagoa, no Monteiro ou no Lamas, compram livros no sebo da Rua do Carmo, hospedam-se no Hotel Novo Mundo, moram no Catete ou no Méier, dormem dentro de uma caixa de papelão em plena Avenida Atlântica, são perseguidos na Avenida Nossa Senhora de Copacabana e assassinados na Tijuca. Enquanto isso, o delegado Espinosa - ético como o filósofo que lhe inspirou o nome, charmoso, mulherengo, solitário e sensível - reflete sobre tudo o que está acontecendo, durante um passeio a pé pelas ruas do centro histórico do Rio. 'Esta cidade é deslumbrante e participa estruturalmente de minhas histórias. Se posso ambientar meus livros aqui, por que vou fazê-lo em outro lugar?', pergunta-se Garcia-Roza, um orgulhoso carioca, que tem visto sua literatura ganhar o mundo. Uma reportagem no 'The New York Times' motivou a tradução de seus livros na Espanha, Itália, França, Inglaterra e Estados Unidos. E tanto O Silêncio da Chuva quanto Achados e Perdidos estão na fila para ser filmados, por Murilo Salles e José Joffily, respectivamente.

As Ruas do Centro

Se o sucesso tanto de público quanto de crítica de Garcia-Roza provou ser possível um romance policial brasileiro - melhor ainda, um romance policial carioca -, há alguns anos, pelo menos desde a publicação de A Grande Arte, em 1983, e de Bufo & Spallanzani, de 1985 (este mais fiel à estrutura do policial tradicional, em que uma investigação é efetivamente levada a cabo), Rubem Fonseca exerce forte influência sobre os novatos. Sob sua confessa inspiração, o engenheiro romeno Iosif Landau, desde 1940 no Brasil, criou um anti-herói: Brucutu, como é conhecido entre marginais e colegas de delegacia, é um cana-dura com cara de índio, viciado em cigarros, cerveja, Pervetin e caldo verde. Tendo-o como protagonista, Landau publicou dois livros nos anos 1990, Comissário Alfredo e Os Anjos Também Morrem. "Além do Fonseca, minha maior influência são os filmes americanos das décadas de 40 e 50. Acho que o Rio tem a ver com a São Francisco de Hammett e a Los Angeles de Chandler mas também de James Ellroy, porque as três são marcadas pelo presença do mar. No entanto, não gosto muito de Copacabana como cenário, parece-me muito cor-de-rosa. Prefiro os cinzas das Ruas Riachuelo e Mem de Sá", explica ele.

Ainda pouco explorado, há o filão do Rio histórico, que rendeu o best-seller de Jô Soares, Xangô de Baker Street, no qual o imperador Dom Pedro II, a atriz Sarah Bernhartd e Sherlock Holmes se vêem às voltas com um serial killer nos trópicos. Menos badalado que o romance de Jô, Shakespeare Não Serve de Álibi - Crime na Belle-Époque Carioca, do jornalista Licínio Rios, conta o assassinato, em 1898, de uma famosa cortesã, amante de figurões da política e da sociedade, e descreve os negros quilombolas escondidos em Santa Teresa, o luxuoso palácio da Rua da Guanabara, o encontro dos artesãos na Rua dos Latoeiros, transformando a velha cidade num 'grand guignol de atrocidades'. Como se vê, muitas são as possibilidades de retratar o Rio e seus crimes. Quem mais se habilita?


Publicado originalmente no suplemente cultural do Jornal Gazeta Mercantil, em 30 de Agosto de 2001

 

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