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Anteparos da Visão: 4 - Surrealismo Imprimir E-mail
Escrito por Claudio Willer   

Vejo o surrealismo como um enorme e maravilhoso conjunto de realizações artísticas - na poesia, prosa, artes visuais, inclusive objetos, colagens e fotografia, cinema, mais isso que depois veio a ser chamado de happening e performance - e, principalmente, como movimento de idéias. Uma grande reflexão sobre a relação entre poesia e sociedade, arte e política, criação e vida. Onde Baudelaire havia sustentado a separação das esferas do verdadeiro, do ético e do estético, em sua crítica ao Victor Hugo de Os Miseráveis, argumentando que as questões da verdade interessavam à ciência, e que moral e arte nada tinham a ver uma com a outra, Breton e seus companheiros tentaram juntá-las ou reaproximá-las. Apresentaram uma nova utopia.

Assim, a dimensão filosófica é inseparável da produção artística do surrealismo. Não existe forma surrealista. Uma exterioridade surrealista, dissociada das idéias, não é surrealismo. Produções instrumentais em video-clipe, peças de publicidade, arranjos de vitrina, desfiles de moda, design, capas de CDs, decoração, o que for, não são surrealismo. A atenção a uma "estética" surrealista pode fazer passar desapercebido aquilo que for realmente provocador e subversivo. Por outro lado, isso que a gente vê, hoje, pode representar um aspecto da permanência do surrea-lismo. Ao menos, da crítica ao realismo, à idéia da arte como mimese (nisso dando seqüência a Baudelaire), valorizando a liberdade de criação.

Atualidade das idéias surrealistas? Quando perder atualidade a idéia da contradição entre poesia e sociedade, da criação como subversão, o mundo pára.

Há polêmica à vista. Ainda mais com a publicação, programada para logo, das entrevistas de André Breton. Em resenhas sobre um livro de en-trevistas com poetas latino-americanos de Floriano Martins, Escritura Conquistada, foi questionado o interesse do surrealismo para a literatura brasileira. O próprio Floriano, mais alguns de seus entrevistados, foram chamados de tardosurrealistas. Comecei a imaginar, quando li isso, os possíveis prefixos do surrealismo. Tardígrados tardo-surrealistas. Esquivos parasurrealistas. Sombrios criptosurrealistas (incluindo o autor da série Contos da Cripta), Lúgubres sub-sur-realistas, adejantes suprasurrealistas, megasurrealistas freqüentadores das megastores, consternados pós-surrealistas tão tristonhos quanto pós-modernos. Anti-surrealistas engolindo em se-co depois de adotarem e lerem direito Octavio Paz. Animados neo-surrealistas, um bando deles subindo e descendo às carreiras, fazendo bastante confusão, as escadarias do seu prédio, Sergio Cohn, naquela festinha de aniversário do Piva. E eu? Quem sou? Qualquer hora, jogam um grosso volume de taxonomia literária sobre minha cabeça, represália a esta entrevista e ao Estranhas Experiências.

Há um acervo de besteiras sobre surrealismo. Duas vezes, nos últimos anos, li em artigos na Folha - um de Milan Kundera, outro de Décio Pignatari (como esse está cada vez mais idiossincrático!) - a afirmação de que o surrealismo não produziu literatura importante. Não, não produziu nada... Exceto toda a poesia de língua francesa da primeira metade do século. E não só Breton, Péret, Eluard etc. Há uma configuração surrealista, que inclui até mesmo Queneau e Ponge, depois de participarem do movimento, fazerem questão de criar algo diferente, bem como Char ficar pouquíssimo, mas dizer que aqueles foram os anos mais importantes de sua vida, e Michaux ter que dar-se ao trabalho de explicar por que não era. Idem, na segunda metade do século, com Octavio Paz, Almé Césaire, Mário Cesariny, não importa quanto tem-po cada um deles participou ativamente do grupo surrealista. Assim como não importa se alguns desses poetas são duas décadas e meia mais velhos do que eu - em termos de tempo da História, isso não é nada.

Nesses e em inúmeros outros casos, o surrealismo é referência. Há uma cons-telação da rebelião, na qual o surrealismo tem lugar central, brilho mais forte, e que, contudo, é mais extensa do que o surrealismo achava que fosse (para mim, inclui a Beat, onde a rebelião se realiza). E há mais coisas ainda. Grandes autores com relações ambivalentes. Cortázar, em seu livro de entrevistas, argumentar que fazia algo menos simbólico, mais real do que surrealismo, para mim é um modo de dizer que, mes-mo incorporando o hábito de guiar-se por signos ao acaso da cidade, ia além das paráfrases bretonianas no Jogo de Amarelinha. O surrealismo como divisor de águas, referência, inclui as caras feias dos estruturalistas, que nossos scholars adotaram. Gérard Legrand, nos anos 60, ironizou os colóquios de Cérisy-la-Salle como frescura, perfumaria de intelectuais. 0 Brasil universitário adotou Tel Ouel e afins, e, por tabela, seus contra-ataques a La Bréche.

Não tenho um medidor de radiação que dê os graus de contaminação surrealista de poetas contemporâneos brasileiros. Nem sei se é o mais importante, embora, com certeza, esse hipotético medidor fosse crepitar perto do Sérgio Lima. Interessa a escrita com imagens, e a poesia em prosa, gênero, a meu ver, subversivo, por, sendo uma coisa, ser outra. Floriano Martins de Tumultú-mulos e outras obras, sem dúvida. Sérgio Lima, cf acima. Idem, ibidem, Piva, Afonso Henriques. Os poemas em prosa do Weydson Barros Leal. Muito mais gente. Poetas imagético-hermético-simbólicos, a começar por Rodrigo de Haro.


Texto enviado por Márcio X. Simões

 

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