| O Olho Dhârmico de D.A. Levy |
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| Escrito por Gary Snyder | |||
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d.a. levy - Darryl Levy - eu fico brincando com seus nomes, para daí tentar descobrir o homem; seus poemas e polêmicas. Eu me sinto irmanado a Levy não apenas como poeta mas também como camarada de trabalho nos campos do Senhor Buda. Levy tem uma herança cármica notável; ele viu quem ele era, onde se encontrava, qual era seu campo de atuação, e quais deveriam ser suas ferramentas.
No pensamento hindu a lei/a verdade/o absoluto é conhecido como Dharma. O Dharma do Buda ("Budismo") é o Dharma conforme transmitido por uma linhagem de homens e mulheres que se auto-iluminaram. Deuses existem, mas mesmo eles estão sujeitos às leis do carma; e por causa de suas vidas cansativamente longas e onipotentes eles também encontram dificuldades em atingir a libertação. Sabe-se que alguns deuses obtiveram esclarecimento ao se instruírem segundo os ensinamentos expostos por alguns sábios humanos que viviam como mendigos esfarrapados. Existem pessoas de mentalidade religiosa que fazem esforços para obter purificação e iluminação solitária, para serem "conforme é Deus" - mas o Dharma é sem dualismos. Grandes iogues budistas do passado muitas vezes atravessavam as noites sentados em túmulos, meditando junto a cadáveres. Alguns desses iogues em sua busca exaustiva através de todos os componentes da mente e das transformações por que passam os pensamentos-energia passaram-se para o "lado escuro" - não mostrando nenhum desgosto dualístico pelo que é "impuro" - e esperando alcançar as profundezas onde se encontra a matéria-prima fundamental, a substância pura para a transformação alquímica em "ouro".
Os iogues e místicos de "direita" fizeram parte integral da conspiração da civilização para degradar as mulheres e mal-utilizar a natureza. Eles se tornaram "religião estabelecida", vivendo com dinheiro provido pelo estado, ou com doações piedosas de trabalhadores e camponeses. Os iogues de esquerda, mulheres e homens, viveram nesse mundo desempenhando seu papel e se sustentando como artesãos e trabalhadores. O Sidha tântrico ("homem de poder") Saraha era um fazedor de flechas. O mestre de Naropa, Tilopa, era um amassador de sementes de gergelim. Muitos foram poetas. Longos esforços de aprendizado eram gastos para dominarem um ofício.
Sua terra natal, Cleveland, de onde ele não pretendia sair. Como os guerreiros Sioux que amarravam-se a uma lança e a fincavam no solo, para daí não recuarem mais. Por quê? Um ato de amor quase irracional - transmitir uma noção de auto-avaliação ao povo de Cleveland por meio da poesia.
- A capacidade de autocrítica de Levy é uma outra coisa. Mas a visão do Bodhisattva não implica em que, em primeiro lugar, você tenha que ter perfeita sua auto-realização para depois entrar no mundo para "curar os doentes e soltar as amarras". A caçamba mergulha fundo na água e do outro lado da roda ela a derrama ao mesmo tempo.
Quem acha que um jovem impressor e poeta que trabalha a sério não incorre em nenhuma forma de condenação e ódio? O problema é mais profundo que o célebre antintelectualismo americano ou que as atitudes sexuais culposas lascivas repressivas e mais do que permissivas - ou seja, a acumulação compulsiva do fator X.
(O departamento-anexo de Lutero é uma instituição nacional.) O problema começou quando os poderes, as formas estéticas, e os conhecimentos profundos das tradições matriarcais de idade avançada foram suplantados pela mística da casta militar & pela acumulação de metais pesados. O poeta/iogue ainda é capaz de falar em nome daquele outro tipo de consciência, mais sã. O poeta ocidental, com a sua "Musa".
Não é fácil plantar nesse canteiro. A natureza como uma rede articulada de transformações dependentes, e a Musa pode se tornar Maya, rainha do sistema ecológico da ilusão; que vai ficar eternamente fazendo trapaças, ou ser um modo de se ver através dela - como desafio, a Cleveland de Levy não é exatamente o adversário; mas a Musa-feiticeira que ele precisa deve ser capaz de nos reconduzir ao Caminho (quer dizer, um melhor retorno para as experiências mal-assombradas de outras encarnações - esse tipo de musa).
Isso nos conduz ao âmago da força de Levy. Todas as manipulações com a política e a mágica - coisas, imagens, provenientes de mundos interiores ou exteriores; se reduzem à esta semente de mostarda que foge no vento quando você tenta olhar para ela.
É curioso como mesmo uma rápida noção da Essência-Mente é capaz de criar esse respeito primal pela terra e pela dignidade dos homens que podem viver em harmonia no coração da vida - os primitivos -
Os budistas tradicionais ortodoxos não estão preocupados em construir novas culturas, mas se interessam muito mais por uma religião da natureza ou pelas garotas. Os poetas devem tentar ter as três coisas ao mesmo tempo - representando um papel peculiar hoje em dia, como homens-chave, entre as vagas de mudanças culturais e a persistência do Olho Solar do conhecimento. d. a. levy deu conta do seu carma bem cedo - "renascido como poeta em uma sociedade industrial" - mas ele executou bem suas tarefas.
Assim o nome da corrente Padma Sambhava do Budismo tibetano, Ning-ma, quer dizer "Os Mais Antigos". A sofisticação da metafísica Mahayana harmonizada com sistemas arcaicos e primitivos... Deusas; ioga sexual. Rica demais para se lidar sem o amargo chá do Zen lado-a-lado - e aqui na América do Norte, Ilha Tartaruga, nós começamos agora a olhar para a próxima reconversão ao caminho: algo que se orienta pelas tradições de conhecimento da Ásia, incorporando profundas experiências de nossas raizes semiticas, célticas, africanas & germânicas - algo que caminha com a terra e os animais da Ilha Tartaruga de uma "maneira sagrada" assim como fazem os índios. Levy indo embora na frente, com aquele tilintar de sinos (que é também a maneira que a gente sabe que o dakini [anjo] se aproxima)
Gary Snyder, 4.VIII.40071 NotasLivros de d.a.levy - procure encontrá-los onde puder - ukanhavyrfukncitibak. Cleveland, Ghost Press 1970. Tradução: Cirro Barroso
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